Amena Cavaqueira

António Boieiro

com

João Reis D’Affonseca

 

Como ele me realçou «Boieiro pá! Da Constelação

Para um aquecimento a nossa conversa começou sobre Sartre e Simone De Beauvoir. A obra de Sartre As Mãos Sujas surgiu num by the way quer sobre aquele jardim monstruoso, visão do menino Tó ainda muito pequenino, aonde ele brincava mas com muito cuidadinho para não se sujar - regra geral imposta às crianças deste país, em particular, como nos países mediterrânicos em geral -, quer sobre os aspectos da liberdade pedagógica dos países nórdicos e germânicos.

 As Mãos Sujas serviu-nos para preguiçosamente datarmos o ano de nascimento do grande autor que abordávamos e neste exercício de aquecimento expunha e demonstrava o Tó que a pedagogia nos países católicos era e é castrante dado que grande parte das brincadeiras infantis caía sistematicamente no rótulo do pecado o que já não acontecia nos países protestantes onde a liberdade juvenil quase não tem limites «ali os putos podem cagar-se à vontade…» Mas sobre o livro de Sartre que abordávamos, António Boieiro, o Tó, deambulava sobre a segunda grande guerra mundial e, numa retrospectiva caminhou, sobre o mesmo autor, para a guerra civil de Espanha aonde repentinamente acrescentou «aí quem foi mestre foi Hemingway.» Mas neste preguiçoso exercício de aquecimento o Tó começava a exibir expressões, esgares e toda uma gestualidade que me mostrava que ele estava a alcançar o seu relax… já começava a sentir-se em casa e para não perturbar este seu aprofundar deixei-o extravasar-se nas suas análises e nem me atrevi a consultar o dicionário ou a Internet para nos lembrarmos que Sartre nascera em 1905.

Com Simone De Beauvoir e os seus documentos pedagógicos a conversa lá se encaminhou para a masturbação infantil como forma de conhecimento do corpo, de exploração do sentir e dos sentimentos envolventes e de novo a Igreja Católica para a considerar pecado mortal com a obrigação do jovem se dirigir de imediato ao confessionário que, para além da retórica patrística, ainda levaria com uma boa dose de penitências que é para saber a estar quieto com as mãozinhas e as perninhas; quanto aos países protestantes escandinavos, esses preferem o psiquiatra para tudo aquilo que lhes possa parecer situações críticas se bem que típicas e denunciantes, pelo menos, das fases da idade que um ser atravessa. Porém, para o Tó e nisso estávamos em profundo acordo, nada há de melhor do que uma boa meditação induzida, por exemplo, pela música dos Dead Can Dance ou poder visualizar as cores e as mesmas penetrarem o seu corpo, coisa que ultimamente lhe tem sido difícil por falta de tempo para a prática e daí o grande cansaço em que se encontra «há já tempo demais… sinto a cabeça vazia pelo extremo cansaço… mesmo oca…»

António Boieiro encontrava-se agora no cerne do poeta, encontrava-se livre, sentia-se já o ele próprio e tal era notório na sua vivacidade e circunspecção, os seus suaves moods em alternância melódica com os seus tons imperativos como os seus NÃOS gritantes-harmónicos de discordância tão agradável quão ajuizada eram já a do poeta que, agora sim, em pleno aberto para falar de si e da sua obra. Vai daí aproveitei imediatamente para lhe perguntar se o seu nickname Tó Gótico advinha do aspecto em que se exibia a sua poesia, da simbológica nela contida ou em outro qualquer aspecto que ela pudesse exteriorizar… «é pá não!... Não sei… talvez…» Aqui o nosso poeta hesita mas após um curto tempo de análise prossegue «algumas imagens talvez. Quando comecei a escrever tinha cerca de dezasseis anos e comecei a fazê-lo por necessidade intrínseca. A história manifesto do adolescente, da insegurança afim… é pá tinha a ver com o gótico porque tinha a ver com a estética nesta altura porque era a situação de eu achar que era muito feio e toda a repercussão que daí advinha a nível do feminino… porque eu era muito feio, porque era isto, porque era aquilo e tal e eu lembro-me que a primeira frase que escrevi, do tipo frase-manifesto, se assim se pode dizer, foi nas paredes da escola, tinha para aí uns catorze ou quinze anos, e que foi qualquer coisa como isto ‘o mundo também é dos feios por favor deixem-nos viver!’»

Claro que de nós valentes gargalhadas ressoaram não só pelo humor da situação mas pela minha parte assentaram e acentuaram um profundo e forte aplauso ao Tó até porque acabara de demonstrar o quão gótica era a forma como expôs e prosseguiu «a partir daí achei que me sentia bem ao escrever esse tipo de coisas até por que ao escrever aquilo não o estava a fazer só para ou por mim, ao intervir desta forma não estava a reivindicar só para mim aliás, eu não escrevi na primeira pessoa escrevi no plural: nós! Aquela palavra nós e isto sou eu agora a pensar porque naquela altura não tinha essa consciência, só mais tarde é que começamos a possui-la através do como escrevemos, se usamos o plural ou o pessoal. Há muitos poetas que escrevem na primeira pessoa, eu tenho muita coisa na primeira pessoa se bem que agora já não escreva tanto assim tal como já utilizo coisas e sentimentos mais abstractos, uma linguagem não tão directa, um sentimento não tão linear do eu sentir assim, ou do eu vi isto. Não! Agora e cada vez mais já vou buscar coisas mais abstractas tal como sentimentos, pensamentos, ligados à natureza, ao mundo que nos rodeia. O que me chamou à atenção na poesia e que continua a ser a minha regra de ouro, foi e continua a ser a metáfora.

Posso ou não afirmar que por vezes fico incomodado, não sei bem traduzir como sinto porque sei que todas as pessoas têm direito à sua opinião e que a devem expressar livremente, por isso não tenho nada que me sentir incomodado; mas oiço às vezes pessoas mais velhas que escreveram livros e que já têm obras feitas portanto, publicadas e não me reporto apenas a poetas mas também a romancistas, a afirmarem que não gostam dos poetas novos porque são muito metafóricos e que a metáfora é muito complicada ao ponto das pessoas lerem aquilo e de não entenderem nada. Tudo bem, eu entendo; mas, acima de tudo, acho – aqui o poeta exibe a sua humildade mas ele não acha, ele Sabe - que a poesia é como a Verdade. A Verdade não pode ser dada! »

Desde o início e mesmo já antes, eu sabia de que não iria entrevistar o Poeta António Boieiro, apenas bastava dar-lhe algum assunto para o seu aquecimento e tudo prosseguiria conforme podemos observar. O Tó é assim: abre-se as orelhas, fixa-se-lhe os olhos, mostras-se-lhe o verdadeiro sentimento de o ouvir e ele volui em palavras sobre si, sobre o que pensa, enfim, sobre a sua filosofia de poeta e de Ser tal como a sua poética filosófica sobre o ser e o Ser. E senão vejamos como ele prossegue abundantemente com os seus raciocínios e a sua vivência que os alimenta e os desenvolve.

«As pessoas cada vez mais querem que a Verdade lhes seja dada tal como a cura automática para a doença; tem que haver um comprimido milagroso, pensam, e normalmente tudo isto vão procurar fora delas quando, na minha opinião, o tal comprimido milagroso como a Verdade encontra-se dentro de todos nós e em cada um de nós. Se cada um de nós procurar a sua verdade então alcançaremos a Verdade Universal aquela que a todos rege; bom, se esse for o caminho. Mas, voltando ao assunto, a metáfora é para mim a grande arma da poesia porque é fascinante tu poderes pôr o Sol a rir, o Sol a chorar, poderes humanizar as coisas que são abstractas, dar-lhes sentimentos… é como nas fábulas em que a voz é concedida aos animais e às coisas expressando desta forma os sentimentos, as ideias, os ideais, como o poderes conceder e entender a vida numa pedra ao ponto de ela poder voar, transmitir…» e aqui necessariamente corroboro afirmando que a metáfora permite tornar qualquer tipo de texto sempre actual «exacto, exacto.»

António Boieiro – ou o Tó Gótico (como quiserdes) - estando a falar da sua poesia já penetrou na morfologia das coisas, na cousa morfológica, na sintaxe das matérias-seres, na sua profunda filosofia. E afirmei-lhe nesta altura que quem acusa os poetas novos de serem muito metafóricos é necessariamente muito preguiçoso e aí ouvi do Tó um «não…» arrastado, é certo. A metáfora permite e tem como fim o penetrar no íntimo de uma pessoa porque se tu, ò Tó, apenas te limitas a escrever a tua verdade, a tua realidade, aí quem te leia ou oiça pode nada a ter para descortinar, um psiquiatra talvez, mas normalmente se de alguma forma lucrar com isso. Agora, se tu escreveres algo que contenha o vago, mas num vago que conduz à conclusão analógica do  metafórico tu conseguirás, como o estás a fazer e a conseguir, penetrar nos que te lêem ou te ouvem: está patente a mensagem e ela tende a ser cada vez mais universal. «O meu modo de escrever está dentro disso. Isto é, eu combato o óbvio e isto eu sempre o procurei desde que tomei consciência da poesia em mim. Para quê dizer ‘ o rio corre calmamente…’ se a metáfora ‘e aquela que se mostrava uma densa e pesada massa de água serpenteava numa leve ligeireza em nada pesando sobre…’ sei lá?! Mas, não diria rio porque preferia descrevê-lo metaforicamente porque achava ser esse o meu modo, o meu estilo e é notoriamente mais abrangente… mas aqui não se trata de evolução porque é sempre muito complicado; afinal, o que é que é evolução ou o que é que não o é? Toda a nossa vida assenta em mutações porque nada é estático.»

Perante isto recordei ao nosso poeta almadense, a célebre afirmação de Buda ‘Não existe nada de constante a não ser a mutação...’ ao que ele imediatamente corroboou «exactamente! Exactamente, sem dúvida nenhuma, a única coisa constante é a mutação. Nós que como seres fazemos parte de um universo e esse mesmo está em constante mutação como não o estaríamos nós? Eu acho que as coisas são simples agora, o que é complicado é nós assinalarmos a simplicidade das coisas, mas que há simplicidade em tudo há!

Noutro dia alguém me perguntou como é que eu podia afirmar tão simplesmente a simplicidade das coisas e eu respondi que lhe podia explicar o significado da vida em três palavras ao que essa pessoa me disse ‘mas como é que podes dizer uma coisa dessas?’ e eu respondi-lhe ‘é simples, as coisas nascem, crescem e morrem e isto é o significado da vida.’ Tal como voltam a nascer, a crescer e a morrer e a vida é assim; depois eu acho que a vida, a morte e todos os processos que ocorrem entre estes estados são exactamente passagens inerentes aos seres, são o típico de se ser; aquilo a que os ocidentais apelidaram de estados da alma enquanto os orientais denominaram de yin e yang, os alquimistas apelaram para a pedra filosofal, os físico-químicos apresentaram as vinte e uma gramas que tu perdes quando morres…» Aqui o Tó não pode deixar de gargalhar interrompido por um «ai!» surdo mas bem gozão, tão gozão que não deixa de ser audível.

Neste ponto, decidi-me por perguntar ao António Boieiro, já um pouco exausto mas decidido a permanecer até ao fim -a coisa estava complicada porque a noite avançava e ele estava preocupado com a Cláudia, sua companheira, porque o trabalho lá no emprego lhe tinha sido reforçado, mas animou-o saber que ainda era muito cedo-, se as suas poesias possuíam espaço para as questões políticas «neste último livro e mesmo nos últimos poemas, há poemas que eu lhes chamo desabafos, nesta última fase da minha escrita e nessa matéria já sou mais directo porque entro em críticas sociais e políticas e que são bem definidas porque são gritantes. Entro então em críticas no que concerne aos senhores do poder, o imperialismo, à hipocrisia que se encontra por detrás de todas essas forças do poder inclusive as forças religiosas predominantes a quem eu metaforicamente lhes chamo os diabos da cruz que dizendo-se os seguidores da cruz tudo o que fazem em nome dela é diabólico e, tal como aos senhores do poder ou sedentes dele, simplesmente lhes digo no fim para aprenderem a amar. Podemos dizer que é sobre política mas a conotação é sempre no sentido do esotérico não obstante também no do exotérico, o fim será sempre o aprender a amar, porque pretendo divulgar os valores que realmente nos gerem e que nos regem como o amor, a amizade, o respeito, a lealdade; enfim, todas essas coisas que são valores que em muitos se encontram completamente destronados… totalmente por terra.

As sociedades actuais existem há muito numa vida plástica aonde o sentimento foi substituído pela mecanicidade, a razão… bom, a razão que eles disserem sê-la e o intelecto, digamos assim, vem sempre primeiro porque o sentimento tende a ser absorvido pelo intelecto. Tudo o que não for racional, tudo aquilo que não compreendemos racionalmente segundo a razão imposta... portanto, tudo o que não é palpável, demonstrável, etc., tende a ser posto de parte porque fomos instruídos de que não tem razão, não faz sentido e nisto reside o erro, piore: é totalmente errado.»

António Boieiro –o nosso Tó Gótico- deslinda com toda a simplicidade o seu sentido de ser e define cada dia a sua linha quer como poeta quer como declamador ao ponto de eu, ao rever a gravação, tentar ser-lhe o mais fiel possível nem que para isso alguma contradição fosse apagada, não! Verti para a escrita o modo como aquelas três horas de diálogo ocorreram e o total do seu conteúdo porque o corpo filosófico-poético deste poeta humanista, esotérico e exotérico afinal apenas não vislumbra só nos céus ou na sua constelação, olhando muito para a Terra e ao ponto de tornar realmente a água em poesia tal como luta para dar palha aos burros mas com resultados muito bons. A sua poesia é plena, não busca termos (palha) pelo belo, pela rima ou pela forma e senão vejamos.

Quem diz que na juventude moderna a poética superabunda de metáforas, tentando desvalorizá-la desta feita, engana-se redundantemente ou é inculto porque desde a antiguidade que a poesia, a prosa poética, o romance tal como inúmeros textos filosóficos e históricos estão repletos de metáforas e mesmo nos sistemas científicos podemos observar isso, não seria necessário apelar aqui para o ditado mnemotécnico de Pitágoras de Siracusa, que de Siracusa não era mas que dava a rima para o fim pretendido, em que a raiz quadrada da soma do quadrado dos catetos é igual à hipotenusa. Ora assim prossegue o Tó «Peguemos no primeiro livro sagrado que é a Bíblia; bem, não será o primeiro livro mas para a religião Católica é-o; grande parte deste livro é poético e cheio de alegorias… praticamente todo ele é alegórico e metafórico e desta forma, voltamos ao início da nossa conversa: a Verdade não pode ser dada de mão beijada porque ninguém te vai dar uma coisa da qual não é detentora. O que pode acontecer é existirem pessoas ou entes que por já terem atingido um certo estágio, digamos, de purificação ou de ascensão ou de iluminação e que existe, te possam ajudar a encontrar um caminho mas eles não ta vão conceder mas e isso sim, vão conceder-te utensílios, ensinamentos que tu poderás aceitar ou não e isto é a base do livre arbítrio. Sim, porque existe o livre arbítrio; na verdade tem de haver o livre arbítrio porque é das coisas mais valiosas que um ser humano tem, mas que cada vez usa menos, que é esta capacidade de decidir por ele próprio e que consiste na capacidade de poder dizer ‘não’ ou poder dizer ‘sim’, ou poder dizer ‘não quero’ ou ‘quero’. Isso é que constitui o livre arbítrio.»

Deixei, como o vou fazer e porque sei que o devo, transmitir-vos as repetições do nosso poeta até porque eu não sou o proprietário de nada, mas e acima de tudo porque António Boieiro não repete, inculca na sua maravilhosa filosofia poética da simplicidade, coisa que rareia muito e desde há muito. «e segundo o que eu conheço do que eu tenho lido e do que tenho visto, tudo o que são correntes que te possam ajudar a alcançar a verdade ou, digamos mesmo, todas aquelas pessoas que buscaram e buscam toda a sua vida a verdade, como os alquimistas e outros; todos eles te exibem um tratado da sua busca numa forma in-directa! Chamem-lhe encriptada, pleno de parábolas e alegorias, usem a terminologia que quiserem, esses documentos são sempre metafóricos!» Aqui lembrei ao Tó um documento arcaíssimo chamado de I Ching, que não sabia se ele conhecia ou não. «Sim! Sim e que é poética pura. É um documento que pela sua metafórica te concede ainda hoje instruções para o teu dia-a-dia, isto é o poder da metáfora.»

Uma coisa que sempre combati foi o preconceito de determinados documentos tal como a forma como são catalogados dentro desses preconceitos. Ora os livros ou sistemas ditos de divinatórios são, na generalidade grandes obras poéticas, epopeias, documentos históricos e filosóficos e quando não são poéticos são em prosa poética, mas que desde a Inquisição foram tachados de documentos de bruxaria adivinhatória e no meio destes até grandes documentos de botânica caíram na fogueira. No entanto, qualquer livro, qualquer material ou ser é em si um livro divinatório… vemos os sacerdotes e as sacerdotisas a perscrutar as entranhas dos seres degolados… as Sibilas… hoje e desde já algumas dezenas de anos, aliás já o Bandarra o fazia, muitos protestantes e católicos  todas as manhãs, após a sua oração matinal, sob um mais ou menos forte estado de concentração, abrem a Bíblia ao acaso com o fito de encontrar o texto que anteveja e os proteja de acontecimentos inoportunos durante esse dia. Mas nós não vemos a Bíblia, nem o Corão, rotulados de livros divinatórios se bem que a Bíblia foi proibida na Época Medieval até aos inícios do século XX e quem a possuísse era carbonizado nas grelhas da Inquisição... «sim! O rotular conduz a isso e conduz à perda de documentos valiosíssimos, como já aconteceu demais no passado. Eu não acredito em coincidências! As coisas acontecem sempre baixo um motivo; por exemplo: tu conheces as pessoas ou ouves alguma coisa mas por qualquer causa é o porque te avisam ‘é pá para, estás a ir longe demais!’ Muito disto que te estou a afirmar como passível de ser casual assenta em coisas simples como uma simples abordagem de alguém que, do momentâneo, te passa despercebido mas se por qualquer acontecimento tu te recordares ou te aperceberes dizes lá para contigo ‘… quem me disse isto disse-mo por alguma razão, espera aí… isto deve ter algum significado… Acontece que tudo isto é tão banalizado que as pessoas não ligam a este tipo de situações mas eu acho que as pessoas não deveriam trivializar este tipo de situações!

Os sinais, os próprios sinais da natureza estão diante de ti sempre indicando um caminho, alertando-te em todos os sentidos.» Aqui o nosso poeta, declamador, filósofo, bardo e senhor dos caminhos, pelo menos do seu o que já o torna passível de ser mestre de muitos, realça que até as pedras são seres vivos e, portanto comunicam; ele sente e sabe que sobre a Terra Mãe tal como no seu interior nada é amorfo, que tudo respira, que tudo tem alma ou o yin e o yang… o nosso modo de ver é que nos torna amorfos perante os inúmeros sinais da natureza e sobre a pedra ou o mineral «sim, claro, claro; através das pedras ou de uma pedra um ser sensitivo (como, por exemplo, um indivíduo que saiba radiestesia) pode abrir os portais e entender pelo toque o que é que aquela pedra viveu –tal como o que sobre ou perto dela aconteceu– ao longo de milhares de anos. Sabes, a questão primordial e implícita assenta no facto de usar o máximo da nossa mente, não nos limitarmos por comodidade ou pressão, que a civilização nos impõe, aos tais tão afirmados dez por cento das nossas capacidades e daí a necessidade da concentração para atingir, num mínimo, o estágio da meditação… mas somos tão egoístas como comodistas e por isso a tudo nos acomodamos. Agora, acho triste que em geral se aceite que os outros é que são super-seres e deste ponto de vista nos menosprezamos mas actuamos assim por puro comodismo… e também pelo stress que a vida laboral nos impõe. Todos somos potencialmente super-seres mas aqui a preguiça e o egocentrismo tem a sua forte palavra: torna-nos incapazes. Eu falo por mim; eu sou extraordinariamente preguiçoso! Eu sou tão preguiçoso que sou o típico do ‘faz o que eu digo mas não faças o que eu faço’.»

Eu sei que um indivíduo que pensa, que caminha no abundante mundo do imaginativo, tem que possuir um cada vez maior poder de auto-análise e, também sei, que esse tipo de ser normalmente se esquece de que aqui por este planeta o dia só possui vinte e quatro horas… agora, quanto mais se recorda dos anos que já lhe passaram sobre a pele. Por acuidade dos seus aperfeiçoamentos, internos e externos, por aquilo que exige de si e, pelo menos, por aquilo que deseja alcançar e que vê sempre tão longe como hipotético, mesmo inalcançável é natural que transmita aos outros aquilo que ele não alcançou… tal como os pais, no acérrimo dos termos, exigiriam aos seus filhos; mas isso é uma substancial significativa parte do amor que atrás focaste, aquele amor que é amizade, que é leal, em que tu depositas os teus segredos (conselhos) e que até te faz ficar triste se a quem aconselhaste falhou… «certamente, certamente! Eu faço isso incessantemente! A Cláudia muitas vezes me diz ‘é pá tu estás constantemente a pregar aos peixinhos mas fazê-lo… está quieto. Fartaste-te de dar conselhos aos outros e que isto e que aquilo e que aqueloutro, o que eu acho muito bem, mas depois seguires esses conselhos não vais lá, pelo contrário.

Eu sinto que isto é um primeiro patamar e estou de acordo contigo, é fácil traduzir-se muita coisa por preguiça e mesmo o tal cansaço mental de que já falámos atrás contribui para estas conclusões imediatas… superficiais. Mas sobre este primeiro patamar e que é um grande passo, houve um grande pensador que afirmou… (não me lembro do nome)… que o primeiro passo é admitires que és ignorante.» E aqui a Ana Clara mete o bedelho: Foi Sócrates pá! (e já antes Confúcio e Lao Tsé…) foi ele quem afirmou ‘só sei que nada sei’. «É isso, mas a partir do momento em que admites que és ignorante estás a dar um passo mas um passo bem grande! O facto de admitires por sentires que não sabes vai abrir-te uma porta para que tu saibas porque se estás a admitir que não sabes então vais à procura desse saber, porque se a matéria em ti constituiu interesse, dê lá por onde der, vais lutar por alcançar esse conhecimento e a respectiva constatação.»

Que as obras de Lao Tsé são poéticas, tal como todas as obras do Taoísmo – já focámos o I Ching -, o Budismo, etc. e as que não são poéticas foram escritas em prosa poética – também já focámos – não constitui novidade… tal como a Bíblia, mas sobre esta queria dizer-te uma coisa e nisto este documento é, ao que parece inédito… talvez por ser fruto de povos nómadas. Numa história, nesse documento contida, relativa a Abraão e a Sara sua esposa um dos escribas hesita sobre ela… provavelmente ele hesitou por questões de datação ou pela corrupção do texto sofredor das agruras do deserto e repete-a. Sara teria os seus dezoito anos quando com Abraão ia entrar no Egipto e Abraão diz-lhe ‘ouve Sara, tu és muito bela e se eles sabem que tu és minha esposa matam-me para oferenda ao rei. Diz, portanto, que és minha irmã o que é verdade pois que somos filhos do mesmo pai mas não da mesma mãe e por isso podemos casar.’ «estás a ver, é muito interessante que pegues nesse assunto porque se tu fores ver só até há pouco tempo e com a implantação da Igreja Católica – mil e poucos anos -, tu só és verdadeiro irmão se fores filho do mesmo pai e não da mesma mãe, até aqui todo o conceito era feminino.» Tens toda a razão porque a esposa era quem dominava a casa e as rendas; quanto aos homens… esses caminhavam entre os sábios nas praças públicas a discutir filosofia, poesia, história, etc. Quanto ao nosso escriba… bom o nosso escriba duvidou, pelo menos das datas e decidiu repetir a história só que nessa altura a bela Sara teria noventa e picos anos! «Quem é que cria? Quem é que gere? A deusa mãe, a deusa natureza, a deusa terra. A deusa é o símbolo dos símbolos do divino! O próprio pentagrama é um símbolo feminino, é um símbolo de Vénus que descreve de oito em oito anos um pentagrama perfeito.

Agora retomando e aplicando ao aspecto da poesia havia, não lhe vou chamar poetisa porque ela nunca o admitiria, uma grande poeta que foi a Natália Correia que sempre afirmou que as mulheres não são poetisas. São POETAS! Porque poeta é uma palavra feminina e a Natália sempre afirmou ‘não! Eu não sou poetisa, eu sou POETA!’ Retomando também o assunto sobre a minha escrita, uma coisa muito engraçada é o criar novas formas a par com novas palavras, como que um novo vocabulário de modo a não enclausurar as coisas e as palavras são coisas e os objectos são coisas e a novidade não prescinde da novidade das outras partes. Não é o ficarmos a afirmar ‘é pá, isto está mal escrito…’ não! Há que criar novos termos que até soam melhor e neste soar melhor também transmitem uma imagem mais viva e mesmo uma forma nova. Mas nunca ficar preso séculos e séculos numa “tábua” do ‘é assim que se escreve’ e mais nada!? De dogmas estamos nós cheios há séculos e o ‘é assim que se escreve’ é um dogma ora, o espírito, a mente, o sentir de um ser não pode ser aprisionado por dogmas e aqui voltamos a lei do livre arbítrio… eu quero lá saber da teoria da evolução… é um dogma que perdurou por mais de um século mas que, volta não volta, é contradito pelos cientistas, mas depois voltam outros para deitar uma acha ao assunto e logo a seguir alguém a destrona… não! Eu não quero saber disso… a não ser que me dê um gozo poético… bem, aí até levanto ossadas. Mas no que concerne à linguagem e à forma o Artaud criou uma nova forma de linguagem e exibe-a bem no seu livro; os próprios modernistas, os futuristas portugueses dos anos de mil novecentos e vinte, Mário de Sá Carneiro como Fernando Pessoa… faltam-me muitos outros… enfim, são sempre estes dois que eu foco.» Mas isto é mesmo assim quando um tipo sabe que está a ser gravado sem se ter debruado os limites do nosso diálogo; eu simplesmente telefonei ao Tó e disse ‘é pá vem cá a casa para expores o que achares sobre ti e o teu trabalho, nós publicamos na nossa página ficando ela nossa como de tantos outros que surgirem tal como de vários que já lá constam…’ Porém o nosso poeta Boieiro não se atrapalha e prossegue «Santa-Ritta Pintor o qual considero o maior futurista de todos eles aliás, um gajo tão futurista que quando estava às portas da morte mandou queimar toda a sua obra e se nós conhecemos dois ou três quadros de Santa-Ritta foi porque estavam guardados em casa de um amigo seu.

O próprio Mário de Sá Carneiro como o Fernando Pessoa tinham modos de escrita completamente diferentes, usavam formas de escrita poética quase em código (encriptadas se assim o posso descrever). Era de tal ordem um código que mais ninguém escrevia assim, com palavras por eles inventadas, com métricas completamente diferentes como pôr uma palavra no topo de uma folha e outra noutro sítio “qualquer” que só eles sabiam o porquê mas a verdade é que essas estruturas, por eles criadas, faziam todo o sentido. Observemos o José Carlos Ary dos Santos; o Ary consegue transmitir o sentimento dum povo e tu hás-de reparar que os poemas do José Carlos nunca são na primeira pessoa assentando sempre num sentimento abstracto o qual traduz o sentimento de um povo sendo, no caso concreto, o sentimento do povo português e para mim, ele faz uma coisa lindíssima aliás, genial - e isto afirmo para aqueles literados que ainda dizem que o José Carlos Ary dos Santos era um poeta menor – que foi escrever para canções! Eu não percebo o que é que há de menor por se escrever para canções… mas pronto, mas tudo bem…» Aqui o nosso poeta dá uma gargalhada sarcástica profunda para quem o conhece e para quem o não conhece observe um vampiro num filme de terror «mas quero-te dizer a razão porque ele escrevia para canções! A determinada altura da vida do Ary perguntaram-lhe ‘Ò Zé Carlos porque é que tu não escreves mais livros?’ e ele responde assim ‘porque neste país nós temos cerca ou mais de setenta por cento de pessoas analfabetas e se eu escrever o povo não me vai ouvir, se eu escrever para cantar o povo ouve, aprende e alerta, porque ao ouvir a música e ao ouvir a letra o povo vai aprender, porque pode não saber ler mas sabe ouvir e a música tratará de os atrair para o que lhes escrevo.’ Por isso é que a maior parte dos poemas do José Carlos Ary dos Santos eram escritos para canção; a sua grande preocupação foi sempre o povo, sempre, sempre!

Outro aspecto do José Carlos que eu também acho genial e que se encontra em As Portas Que Abril Abriu, este não é apenas um poema sobre o vinte e cinco de Abril, ele vai muito mais para além disso apresentando, neste poema, toda a história de Portugal daqueles vinte anos todos que vêm a seguir mas muito a seguir ao Abril, a tentativa do vinte e cinco de Novembro mas antes ele vai buscar o Camões, vai buscar os Descobrimentos, ele faz-te uma história de Portugal naquele poema todo! Completamente metafórico esse seu poema mas directo ao mesmo tempo e aí está a beleza do José Carlos Ary dos Santos. Quando ele se questiona se pode nascer um país do ventre duma xaimite… Isto é ou não é metafórico e directo? Isto é lindíssimo! É um apelo? Correcto! Quem assim o entender, é realmente um apelo às armas, é um apelo à revolução mas, alguns podem apenas só ver isto e outros irem mais longe!» Bom e neste poema nem é necessário especular para se concluir que o Ary pretende e vai mais longe… «A própria denominada  poesia de Intervenção, que as pessoas que se dizem ser intervencionistas a afirmam como a mais directa por não ser metafórica, na realidade é também metafórica porque se fossem apenas directos no antes vinte e cinco de Abril eram presos. Ora bem, nessa altura é que tinham que ser mesmo metafóricos e mesmo assim eram presos… o Zeca Afonso criou imensa poesia para cantar baseado na realidade de ter de comunicar aos tais setenta por cento de analfabetos ou mesmo mais, porque há indivíduos que sabem ler mas que não deixam de ser analfabetos porque não entendem… ou melhor, não querem entender porque não estavam nem estão para raciocinar: são os leitores mecânicos ou apenas os que nos jornais só lêem as “gordas” pensando daí tirar todas as ilações; claro que também há os “intelectuais” hábeis-ó-viciados na leitura diagonal que se tornam um tipo perigoso de analfabetos. Mas estes como os anteriores, que não estão para raciocinar, é que são os verdadeiros preguiçosos… no acérrimo do termo.

«E pelo que acabas de afirmar tal como quando me convidaste para este diálogo, focaste no telefonema que me fizeste o nacionalismo. Não queria falar em nacionalismo porque esse termo tornou-se um chavão cuja conotação geral é muito depreciativa. Mas… sim, sim, vou falar porque não me deixo levar por superficiais conotações por mais perigosa que essas se possam exibir… não vamos ver as coisas apenas pelo seu lado negativo por isso, é pelo seu lado positivo que eu vou falar do que me propuseste.» Sim mas eu pedi-te que falasses do nacionalismo sem essas conotações, daquele nacionalismo são que, por exemplo, te faz permanecer em Portugal enquanto imensa malta dá o salto para o estrangeiro acabando muitos deles a viver à custa da renda social desses países… não trabalham e são uma péssima imagem da nova geração portuguesa os quais, não são emigrantes e oxalá não fossem nada: mas são uma péssima imagem de Portugal. Tu não, tu reagiste logo a isso, expuseste de imediato a riqueza popular portuguesa e havendo-a aqui havia que ser estudada e aplicada! «Mas observa… o facto de não desistirmos das nossas raízes, das tradições e se ficarmos por aqui é simplesmente porque procuramos algo nosso, porque o melhor a nível monetário ou a nível material, ou ambos, é o que leva as pessoas muitas vezes a sair do nosso país e o que também é facto é que se formos a esses países encontramos os jovens a trabalhar em áreas que aqui nunca o fariam e que mesmo tendo outras contrapartidas como um acesso mais fácil a nível cultural e a outros níveis me fazem com que me pergunte: será que vale a pena? É sempre gratificante sair daqui e conhecer novas coisas mas, no todo, na tua vivência, mas será que vendo-te obrigado a fazer aquilo que aqui não farias… porreiro, ganhas mais dinheiro tal como podes dispender mais e ficar na mesma, ou podes poupar… mas no global, no intrínseco, em que é que essa pessoa, que daqui saiu, enriqueceu mais do que nós que por aqui ficamos na nossa busca? Se tu fores ver os resultados dos grandes surtos da emigração portuguesa tal como sobre os retornados, enfim, de todos aqueles que partiram e voltaram, os poucos que eu conheço regressaram muito empobrecidos a nível cultural, a nível pessoal, a nível cívico, a nível de ser humano não trazem grande riqueza com eles!» Pelo contrário, na generalidade trouxeram um lado negativo muito forte… o lado traumático. «Agora, isto é apenas uma parte da minha opinião. A outra vertente da minha opinião, e isto eu não sei se é verdade ou não, é que acho que nesta altura no nosso país a nível de pensamento, a nível de correntes filosóficas, a nível de correntes esotéricas, a nível de gente a pensar de outra maneira, a nível de gente já a tomar uma atitude diferente para com o outro, observo em tudo isto que está a haver uma grande transformação. Podes reparar, as pessoas cada vez mais recorrem às medicinas alternativas, já não confiam na medicina dita clássica e como tu sabes as medicinas alternativas assentam em formas de estar e formas de ver a vida; mas não só, a nível psicológico e a nível intelectual, eu vejo, eu assisto a conversas… olha, a conversa que estamos a ter agora e que já iniciámos vai para quase uma hora, eu acredito que em muitas partes da Europa estas conversas não existem e em Portugal já cá as temos.»

Sim! E a Escandinávia é um bom exemplo disso… é muito difícil dialogar com eles da mesma forma como aqui estamos a falar à mesa, senão impossível, e para isso tenho muitos exemplos com os suecos, os noruegueses e sobretudo com os finlandeses. «Mais razão me dás; eu acredito que Portugal está a ter uma viragem a nível emocional. Observo que a revolução a que toda a gente apela e de que todos falam não vai ser uma revolução de armas nem o pode ser. A tão apelada terceira guerra mundial que aparentemente não se deu… a terceira guerra mundial já começou há muito tempo, começou nos anos sessenta com a guerra da transformação das mentalidades, da transformação do ser humano, porque das duas uma: ou o ser humano se transforma ou a Terra nos transforma a todos e vamos todos corridos daqui para fora. O planeta Terra está a expurgar o mal que nós lhe estamos a fazer; neste momento nós somos os micróbios da Terra, o ser humano é a doença, melhor mas pior, é o cancro da Terra e das duas uma ou o cancro toma consciência do que está a fazer e toma consciência global – espiritual, o que é o universo, qual é a sua missão, a sua parte aqui e o interesse de se estar aqui -, ou a Terra nas suas formas de se regenerar, porque ela as possui como nós. O corpo humano possui todas as capacidades regenerativas sem a necessidade de recorrer a medicamentos químicos de elevada elaboração, basta-lhe o que a natureza lhe concede, a Terra possui tudo isso tal como o concede a todos os seres e, então, ou nós nos regeneramos para podermos trabalhar com a Terra no seu equilíbrio ou esta simplesmente apaga-nos da sua superfície e do seu volume e acabou!

O nosso António Boieiro, já conhecido como poeta, escritor, declamador, já exibido aqui como filósofo, esotérico e humanista, surge-nos agora como o ambientalista, o exotérico, o ecologista e ele corrobora pelas suas afirmações e actos a amplidão que ele mesmo abarca. O espiritual na boca do nosso poeta é o pragmático pela eminência que ele descreve. «E é o que está a acontecer, como podes observar, com as manifestações em escalada crescente de tufões, quasi maremotos que emergem de ondas gigantescas e inundam terras e ilhas ameaçando territórios, os terramotos como no Japão que já ultrapassam a escala de Richter, os pólos deixam cada vez mais a sua posição teórica dos noventa graus oscilando agora numa escala de seis e meio sete graus mas com tendência acentuada para aumentar o declínio e estes graus de que falo representam largas centenas de quilómetros de raio de oscilação desiquilibrante e isto tudo é um pequeno exemplo nos acontecimentos globais desta Mãe Terra.» Mas agora o Tó já desanuviado do espectro apocalíptico retoma e prossegue sobre o que está a acontecer aqui neste país «as pessoas no seu crescendo de abertura sabem, incluindo os ainda analfabetos, e sentem! E sentem de tal forma que na sua cultura ancestral indagam cada vez mais os sinais dos tempos preocupadas com as suas gerações vindouras. E esta abertura, mesmo nos sítios mais remotos de Portugal, alcança pontos incríveis… vê por exemplo em relação a mim, com o meu modo de vestir e de me apresentar; dantes as pessoas olhavam, olhavam com um criticismo de soslaio mas que se sentia bem forte e, agora, posso ir aos sítios mais recônditos deste país… sei lá, a um lugarejo isolado de Trás-os-Montes e o povo deixou de me olhar como já descrevi, nunca mais fui mal tratado, nunca mais sofri atitudes negativas e mais, está a surgir uma coisa muito interessante no meu país mesmo nos meios considerados muito conservadores; é que as pessoas já reflectem antes de esboçar um comentário seja de que tipo for e perguntam-se ‘será artista, será professor, ou será…’ mas já não com um julgamento condenatório à partida e isto é muito interessante porque denota a mudança das mentalidades. É certo que estes tipos de raciocínios que apresentei têm o seu lado negativo e que assenta no facto de que quem se veste assim é porque é “assim” ou “assado” e sempre no bom sentido da conclusão porque implica uma posição social digna ou porque é um criativo… e isto não pode ser assumido assim sob pena de um desastroso raciocínio… sei lá, um ladrão assumir a mesma atitude, por exemplo… é visível o perigo! Porém e por outro lado exibe já uma maneira de ver-aceitar as pessoas de um modo diferente mesmo porque, depois, começam a ver surgir outros que não são “isto” ou não são “aquilo” mas que demonstram ser plenamente educadas, conscientes e porque se demonstram agradáveis, que tratam o próximo com respeito e já os tratam de outra maneira… já os acolhem no seu seio entrando com eles num tu-cá-tu-lá abrindo-lhes todo o seu espírito de diálogo.

O que eu acho e este tem sido o meu combate, é que o trabalho a nível cultural, espiritual, de sentimentos, como tudo o que é intelectual, é um trabalho que tem que ser feito como me disse um amigo. Esse meu amigo quando aborda a música, a literatura, a arte em geral, escalona tudo tal e qual como as divisões do futebol; existe a primeira divisão que é constituída por pessoas que estão no topo da sua arte e que dela podem viver porque o seu reconhecimento a nível intelectual lhes permite venderem a sua arte… eles vendem a sua arte! Há também aqueles que vivem na sua arte mas nunca venderam a sua arte prosseguindo, no entanto, a viver para a sua arte. Temos depois aqueles que estão na segunda divisão que contém os que ainda não vivem totalmente da sua arte mas que trabalham para suster e sustentar a sua casa mas que não obstante prosseguem a elaborar a sua arte mantendo, paralelamente, as suas conversas intelectuais que acham importantes, os seus diálogos com outras pessoas sempre a desbravar ideias, porque as pessoas estão abertas; seja qual for a sua idade as pessoas não estão fechadas. É natural que num primeiro contacto determinadas pessoas assumam uma atitude de defesa, mas depois de entrarmos no ambiente delas, de nos abrirmos perante elas, passam a dar-nos os bons dias, as boas tardes, dão-nos os seus francos sorrisos, perguntam-nos como estamos… depois de com elas entrarmos numa conversa geralmente denominada de mundana é com esta que damos início ao estabelecimento de uma amizade e tal permite uma gradual abertura por parte das pessoas ao ponto de já podermos desenvolver outros assuntos acabando, normalmente, por ficarmos surpreendidos. Quantas vezes não pensámos, num primeiro contacto, que aquele povo era conservador, um conjunto de botas de elástico e depois vêem-se a revelar o oposto? Acabamos por concluir que são pessoas com uma visão diferente, riquíssima e que estavam à espera que nós estabelecêssemos com elas aquele tipo de diálogo tal como exibem que essa necessidade existia porque também elas têm histórias e vivências interessantíssimas para contar. Por isso eu observo e penso que em Portugal está-se cada vez mais a desenvolver este tipo de diálogos; com o devido respeito para com os outros, como sempre procurei manter esse respeito (quem quiser sair saia), eu sinto esta necessidade e sei que não sou só eu… há muito mais pessoas a estabelecer com o nosso povo este tipo de diálogos tal como saber ouvi-los.»

Como investigador eu chegava às aldeias e  perguntavam-me se ia lá para descansar ou se estava de passagem; eu dizia que não, que estava em investigação por parte duma universidade e as pessoas reagiam num forte ‘não’ pelo modo como eu vestia e visto; ora quem vai para investigação no terreno, em muitas situações, o ideal seria mesmo o fato-macaco; da mesma forma eu quando vou para as aulas vou vestido de modo a que nada me prenda os movimentos. Porém, nas aldeias, o povo observava pelas perguntas que eu lhes fazia, pelo modo como eu com elas dialogava, pelo modo que eu escrevia e constatavam que afinal era verdade… até porque mentir para quê? Mas tudo isto está a servir de preâmbulo para outra questão que te quero pôr. Eu assisti até hoje duas vezes a duas declamações tuas, na última vez usaste o teu corpo e a tua roupa para formar o cenário, eras acompanhado por uma guitarra portuguesa e tu usaste um estilo de declamação excessivamente clássica enfim, parecias a Palmira Bastos nas Árvores Morrem de Pé – aqui o nosso poeta gargalha à descancra -, mas numa anterior tu declamaste tal como estamos aqui a falar agora, o que eu gostava de saber é se usas por sistema um estilo de declamação. «Essas de que acabaste de falar foi muito no meu início. A minha declamação depende da forma como eu sinto o poema, tal como depende também do espaço em que vou declamar e depende de muitos outros factores.» Da marca do Porto também… «eh pá… não! O Porto é para aquecer a voz.» E nova gargalhada estronda. Tudo depende do modo de sentir; por vezes sinto que não estou a declamar tão bem e as pessoas dizem-me que declamação decorreu de uma forma excepcional e o contrário também acontece. A declamação, para mim, é sempre uma eterna busca; por exemplo, nas poesias vadias eu levo os livros apesar de já saber de cor muitas delas e abro num poema e declamo-o sem o ler, começo a beber-lhe as palavras naquela altura. Em relação à Doce Cicuta, que infelizmente já acabou, era um projecto que eu tinha com o João Lima na guitarra portuguesa que durante seis meses todas as quintas feiras e foi apresentado no bar O Lado Negro do Rio (no Ginjal, Cacilhas) e por detrás de nós estavam as máquinas que programávamos em função daquilo que íamos apresentar. Depois de uma paragem retomámos há dois anos mas decidimos por uma forma mais simples sem máquinas, apenas a voz e a guitarra portuguesa não só com outros poemas mas também com os meus e resultou de um modo fantástico porque existia uma harmonia muito grande entre o que eu declamava e a guitarra portuguesa que não podias afirmar que se tratava de poesia acompanhada à guitarra porque de tal não se tratava, na realidade a poesia e a guitarra eram uma só… era um elemento, um uníssono e era isto que nós pretendíamos e que conseguimos porque as pessoas que assistiram aperceberam-se de imediato que era disso que se tratava. Ora aquilo a que tu assististe foi ao primeiro e ao segundo espectáculo na altura em que ainda não tínhamos nome e que foi apenas uma brincadeira que nós começámos por tentar fazer e que depois, mais tarde, começámos a levar mais a sério arrancando com uma série de espectáculos que se expandiram a Lisboa, na Caixa Económica Operária fizemos dois, apesar de termos sido convidados só para um foi tão apreciado que nos convidaram para outro e nestes nem usámos microfones, tudo completamente acústico o que na realidade é um modo totalmente diferente de declamar. Por exemplo, quando eu estou a declamar conjugado com a guitarra portuguesa eu cantava em determinadas partes da declamação, ou melhor, musicalizava certos trechos de poemas depois passava a seguir à declamação, procurava declamar cada poema de uma forma diferente um duma forma mais clássica outro num estilo menos clássico, também usava um estilo mais interventivo quando o poema se proporcionava a isso… não gosto de catalogar ou classificar estas coisas pois que elas ocorrem de acordo com a forma-disposição como se sente na altura e aqui, realmente, a música da guitarra é, na sua musicalidade, muito inspiradora tornando-se um desafio para nos levar a outros sítios, a outros campos de declamação que eu, tu ou mesmo ninguém nunca foi a declamação não existe e em relação a isto eu sempre fui contra, assente num ou dois estilos fixos porque o estilo ressalta na altura conforme te venho vindo a dizer. A ideia que eu tinha de que a maioria das pessoas em Portugal não ouviam declamação fez-me procurar o porquê, isto há uns bons anos e aliás eu tive esta discussão com o António Vitorino e foi por causa desta discussão que surgiu a poezine, contracção de poesia e fanzine, Debaixo do Bulcão, nesta altura estava eu, o Vitorino e o João Mota no Ponto de Encontro – nome porque é conhecida em Cacilhas e em Almada a Casa Municipal da Juventude – e o António Vitorino volta-se para mim e diz-me ‘é pá, o que é que tu achas da malta fazer aí uma fanzine só de poesia? Ao que eu lhe respondi que achava a ideia bestial e afirmei isto porque a poesia está morta e o Vitorino no primeiro Editorial tal como nos aniversários costuma contar esta história ‘é pá, a poesia está morta em Portugal vamos lá fazer isto!’ E o João Mota corroboou ‘porreiro da vida, vamos a isso’ e começou por nós os três juntarmos umas quantas coisas que cada um tinha escrito e aderência foi tão grande, tão grande que já inúmera gente não só queria escrever para aquilo como escreveu ao ponto de eu concluir que Portugal continua a ser um país de poetas, cada português é um poeta porque a poesia está dentro de todos, está-lhes no sangue.

Eu tinha o meu inimigo… não é inimigo… como é que eu costumo dizer…? O meu ódio de estimação que é o Vítor de Sousa porque eu achava que era o Vítor de Sousa o culpado, pelo modo como ele declamava, das pessoas não quererem ouvir poesia em Portugal porque, realmente tu ouvias esse tipo a declamar e aquilo era uma seca do caraças porque não há pachorra para aturar aquela merda clássica.» Aqui, o Tó Boieiro desatou a imitar o Vítor de Sousa chegando a um ponto que eu tive de tapar as orelhas para não ouvir mais. «Porque o gajo só e por sistema, declamar daquela maneira, como viste cansa-te! Vou falar-te, para exemplo, de três personagens e se são só homens a lacuna é minha porque em relação às mulheres conheço poucas tirando a Natália Correia que era maravilhosa a declamar e a Florbela Espanca penso que também…» Lacuna minha… lacuna minha, repetia o nosso poeta e declamador e é verdade nem eu me lembro de mulheres deste país a declamar… bom, há que não esquecer as mulheres do povo deste país, grandes senhoras da declamação e da desgarrada poética. Ah! E a Ivone Silva… caramba há tantas gafes que cometemos mas, deixem lá… afinal aqui somos todos auto-didactas e a cultura está tão cara… mesmo pela hora da morte. «Cada vez que participo na poesia vadia e que normalmente é por sistema, vão lá muitas senhoras que declamam lindamente e eu estou sempre a dizer ‘sim senhor, mulheres a declamar! Vamos pôr as mulheres a declamar! Apareceu por lá uma senhora brasileira apenas porque está a viver no Brasil mas que é portuguesa que é actriz, poetisa e que faz parte da Sociedade dos Actores e Poetas do Brasil e ela diz que cada vez que fazem tertúlias de poesia lá nesse país é só mulheres que participam, raramente vão lá homens declamar poesia e aqui é o contrário. Ela chegou lá numa sessão de poesia vadia, por acaso estávamos a comemorar o Dia Internacional do Teatro e estava lá um actor aqui de Cacilhas, e ela disse ‘mulheres vamos começar a declamar! A mulher tem muito mais força de que o homem! A mulher é mãe, é empregada, é mulher a dias, é tudo e é isto e aquilo, vamos declamar!’ e eu achei lindíssimo todo este grito de apelo daquela mulher. Também achei muito belo uma senhora de oitenta e tal anos que vive aqui em Cacilhas que foi à sessão de poesia e a senhora já vê muito pouco eh pá e a senhora de repente começa a declamar poesia popular improvisada por ela que foi uma coisa fabulosa, tal como o António Aleixo. Portugal é um pai de poetas! Eu gostava que as pessoas e em especial as camadas mais jovens e mesmo os da minha geração, aqueles que ainda não estão abertos à declamação de poesia, nos ouvissem e se dirigissem também nesta arte porque é uma arte intrínseca aos portugueses… lá está! Está no nosso sangue. Então eu decidi começar a trazer coisas diferentes através da poesia, a fazer espectáculos diferentes; comecei a por teatralizar os primeiros só comigo em que montava um cenário, programava uma banda sonora e depois os poemas surgiam do cenário e eu queimava os poemas ou escondia-os o que, como vês, era uma coisa totalmente diferente do que um tipo ali especado com os poemas na mão a dizer a poesia. Desta forma eu criava uma abertura de interesse sobre a qual as pessoas diziam ‘eh pá, mas espera lá! Mas isto é mesmo porreiro!’ E cada vez mais, quando acabávamos os espectáculos da Doce Cicuta às quintas-feiras observávamos que estava ali pessoal que vinha de sítios longínquos porque sabiam que naquele dia e naquele local se declamava poesia com guitarra portuguesa e vinham de propósito chegando a percorrer duzentos e trezentos quilómetros para nos virem ouvir e eu ficava parvo quando me relatavam que tinham percorrido aquelas distâncias só para ir ali, apenas para ir ouvir poesia conjuntamente com a guitarra portuguesa. Isto é também um exemplo de que Portugal está a mudar e que nós estamos a fazer um trabalho cá em Portugal que se já tem dado e está a dar os resultados que tu vês então eu só posso afirmar que vou ficar aqui, como atrás te disse e vou ficar aqui porque acho que vale a pena e vale a pena! É que nós somos ricos, nós temos uma cultura riquíssima, nós temos uma capacidade intelectual riquíssima, nós temos um modo de pensar que nos é inerente e que não observas isso noutros povos; agora, nós é que temos o tal fado do português desgraçadinho mas que noto que cada vez mais está a acabar.» E que tinha muita razão para se sentir o desgraçado baixo o anterior regime político. «Sim! Mas estou a falar mesmo depois. Tu aqui neste país ainda continuas a passar de besta a bestial e vice-versa num minuto e o Euro 2004 foi um exemplo disso… por exemplo a nível do jogo, o Ricardo sofreu aquilo que toda a gente exclamava e gritava ser um frango no primeiro jogo e depois contra a Inglaterra defende aquele penalty sem luvas goleando a seguir no penalty em que foi ele a rematar e passou de besta a herói nacional.

Há outro exemplo que eu costumo dar e que acho maravilhoso que é o filme da Maria de Medeiros, Os Capitães de Abril, em que há uma cena que noto traduzir o que é o povo português na qual o Salgueiro Maia vai com o amigo à prisão de Caxias ver sair o pessoal que contribuíra e, como tal, acabara por fazer a revolução; pegam no carro, vão com a filha do amigo do Salgueiro Maia mais um amigo, capitão da força aérea e vão a Caxias ver a saída dos presos políticos e à vinda para cá está um corredor enorme de população e há alguém entre as pessoas que se lembra de gritar ‘eh pá! Os gajos são fascistas!’ E automaticamente a população salta para cima do carro a querer agredi-los com pedras e outros objectos e os militares, dentro do carro, tiram os seus cartões de identificação militar e mostrando-os para o povo ver gritavam ‘nós somos militares! Nós somos militares…’ de um segundo para o outro alguém berra ‘os gajos são militares!’ e tu ouves a populaça toda a gritar ‘o povo está com o MFA!’ De um segundo para o outro aqueles indivíduos passam de pides para libertadores do povo, tudo num ápice e estas mudanças provenientes de conclusões abruptas e mesmo perigosas, sem análise, ainda está um pouco arreigado à cultura portuguesa. Mas eu não acho que isso seja mau porque se tu vires pela positiva eles na realidade eram militares e o povo consegue atempadamente concluir que estava a ser injusto num instante.» Bom, a revolução também ainda era muito recente.

Nessa altura e eu recordo-me que cheguei a Portugal passado uns três anos e tal após a revolução e como tinha o meu carro na oficina a fazer a revisão, após uma viajem da Suécia, entrei no café do meu bairro e perguntei ao pessoal se alguém me emprestava um. Entre o pessoal ouve um que me atirou as chaves localizando-me o seu carro. Eu lá fui direito à Casa da Imprensa Nacional para tratar de documentação urgente e quando ia na Duque D’Ávila (em Lisboa), ao aproximar-me da Av.ª da República vejo uma manifestação. Abri o vidro e perguntei a um manifestante se a manifestação ainda durava muito e a resposta foi imediata “Camaradas! O fascismo está deste lado!” E foi quando eu topei que estava a conduzir um Mercedes, consegui inverter a marcha e num pião galgar a toda a brida a divisória central e voltar para trás na esgalha senão aquele pessoal linchava-me ali. E eu que ainda estava em Asilo por causa do anterior regime de Portugal. «Correcto, também pode haver o contrário, o lado negativo pode vingar porque uma pessoa está a ser injusta e teimar na sua injustiça ao ponto de ninguém o conseguir demover de tal posição mas, se houver mais vozes que o alertem ou algo que o alerte, de um momento para o outro a pessoa normalmente cede e compreende. Tem que haver sempre um lado positivo em todas as coisas.» Bom, no caso que acima relatei eu primeiro levava umas castanhadas e depois, com um pouco de sorte, alguém me reconheceria e possivelmente também passaria de bosta a herói nacional. Mas, por castanhada e em relação à poesia e o dom da declamação que corre nas veias do povo português –tirando a Rosa Lobato de Faria mas mesmo assim fazendo-lhe jus porque ela, posteriormente, jucou abundantemente o seu modo de declamar-, há uma obra do Astérix onde é perguntado ao português ‘…ouve lá, e tu o que sabes fazer? O português hesitou um pouco e lá respondeu ‘… eu sei declamar umas poesias…’ «é isso! ‘Eu sou lusitano não sei cantar mas posso declamar qualquer coisa.Lindíssimo!

Mas uma coisa importante é o extenso lapso de muitas gerações em que a poesia é assumida como sumamente aborrecida: a poesia é chata! Isto perdurou até à minha geração e isto era muito a opinião dos jovens…» É verdade e mesmo colegas meus de letras, já licenciados e mais do que isso, chegaram a afirmar que a poesia era uma pequena mancha escura para muito papel branco desperdiçado. Aqui o nosso poeta desatou a rir à descancra «mas repara, há aqui uma lacuna e é uma lacuna por culpa de muita gente, de muitos formadores sendo que os primeiros formadores são os pais. Por exemplo, é vergonhoso haver gerações do vinte e cinco de Abril e mesmo na minha a desconhecer esta grande revolução portuguesa afirmando barbaridades tal como o vinte e cinco de Abril foi a altura em que o Salazar tomou o poder, pior, altura em que Salazar salvou Portugal e muitos são estudantes universitários, tal como observas jovens que, pela educação dos seus pais, defendem que no tempo de Salazar é que era bom porque não havia pobreza, não havia desemprego… eh pá! Eu sei lá… há tanta alarvice que se incute que pode promover o descambar das coisas.

Mas retomando o assunto da poesia. Quando eu tinha catorze, quinze, dezasseis e mesmo dezassete anos, quem é que se ouvia declamar na televisão…? O pouco que se ouvia, que me perdoe o Victor de Sousa porque até já me disseram que era boa pessoa e o caraças, mas o gajo tinha aqueles programas e aquilo era chato! Bom, da Rosa Lobato de Faria nem falar tal como a Germana Tânger a declamar Florbela Espanca… era pior do que uma náusea. Mas o programa do Victor de Sousa era para intelectuais ou para aqueles que já tinham uma formação elevada a nível da poética e que gostariam daquilo ou não, porque eu sei que muitos não gostavam. Agora, incentivar a juventude, um puto de doze, treze, catorze ou quinze anos com aquele tipo de declamação? Mas nem pensar!

Felizmente há mulheres a declamar e a declamar muito bem como já atrás disse… claro tirando aquelas que acabaste de focar. Porém, quero abordar três indivíduos a declamar que eu achava que era assim que se deveria tratar a declamação da poesia e mesmo que não só assim que se explorem outras maneiras mas que concedam a vontade, o profundo desejo, de ouvir poesia. Ora entre este três estão o João Villaret, o Mário Viegas, não por ordem de gosto, e o José Carlos Ary dos Santos.» A Natália Correia até na Assembleia da República declamava… «sim, sem dúvida nenhuma! Ela fez uma crítica sobre o aborto a um parlamentar do CDS que se tornou um poema fantástico, que foi fabuloso e riquíssima – como a Natália foi sempre – em matéria de metáforas ao ponto de dizer, nesse tal poema, ao deputado em causa que ele não tinha sido parido mas cagado… metaforicamente como é óbvio e isso consta nos Anais da Assembleia. Porém e em relação aos três declamadores de quem falei senti que eles possuíam um modo brilhante de incentivar as pessoas a ouvirem poesia e a gostarem de poesia. Claro que eu sei que se o Mário Viegas soubesse que eu o considero um declamador as coisas davam para o torto mas, quer ele queira ou ele era-o!

Eu tive uma oportunidade encantadora que foi a de ter sido convidado para declamar poesia uma noite e nós percorremos cerca de quatrocentos quilómetros para irmos a Arco do Baúlhe, aquilo fica lá para os confins de Trás-os-Montes fui eu, a Cláudia e mais um casal nosso amigo. Por aquelas bandas e no norte em geral há o hábito de em determinadas alturas as pessoas se reunirem para dizer poesia; eu penso que isto foi na altura do Carnaval. Estas pessoas têm sempre uns sítios porreiros e lá arranjaram, à sua boa maneira, um local bestial porque tu tens o restaurante cá embaixo e as dormidas são por cima o que é óptimo porque comes e bebes e é só ir dormir sem sair dali nem te chatear. Uma comida tradicional extraordinária, aquilo no meio de um vale em que um tipo se sente em pleno com a natureza, as pessoas simpatiquíssimas e muito abertas, tão comunicativas que estivemos oito horas à desgarrada a dizer poesia sem pararmos num ritmo alucinante. Foi uma coisa lindíssima! Em pouco tempo já não havia audiência, já éramos todos à desgarrada. Perante isto eu tive uma ideia: porque é que nós não começamos a fazer isto aqui em Cacilhas no Café com Letras? Foi a partir de aqui que nasceu, neste local, A Poesia Vadia e que são sessões mensais que se dão no último sábado de cada mês a partir das dezassete horas; as pessoas vêm e quem quiser dizer poesia diz, quem não quiser ouve e é lindíssimo porque juntam-se ali uma série de diferentes gerações que vai desde os dezassete a mais de oitenta anos tudo a dizer poesia independentemente do seu status, se têm obras publicadas ou não… nada disso interessa, a declamar mal ou bem… também não interessa, é irrelevante porque ninguém está ali para apontar seja o que for. Trata-se simplesmente de uma tertúlia e é um momento tão enriquecedor que limpa a alma às pessoas; ajuda-se ali uma série de pessoas e vêm cada vez mais tendo já havido tantas pessoas que o espaço ficou inundado com gente em pé e que, depois se iam alternando, levantando-se uns para dar o lugar aos outros mas mantendo-se todos lá dentro e alegra-me saber que este tipo de tertúlias se está a fazer pelo país inteiro e, desta forma, agora pode-se afirmar que a poesia não está morta… ela vive nestes meios e noutros desde Trás-os-Montes ao Algarve e cada vez mais pessoas se dedicam à poesia! É um grande crescendo que clama que a poesia está viva!

O que existiam, também, eram muitos preconceitos que, de certa forma, ainda hoje permanecem apesar do trabalho que se tem feito para acabar com eles, como por exemplo, da imagem ridícula do bardo. Se reparares o bardo, nas várias épocas, é descrito quase sempre como um gajo chato e desafinado que ninguém suporta ao ponto de, por vezes não se distinguir do bobo. Mas com as buscas que temos feito, com as improvisações em que experimentamos conjugar poesia com material de som, com instrumentos musicais, desenvolvendo continuamente novas formas de declamar, de dizer a poesia, as pessoas concluem cada vez mais que esta é uma actividade de grande importância e extraordinariamente saudável mas isso passou e passa também por mostrar às pessoas que a poesia tem nexo, tem nela contida a realidade. Por exemplo, uma amiga minha costumava dizer-me ‘eh pá, aborrece-me ler poesia porque eu leio um poema e depois tenho que estar meia ou uma hora a pensar naquela porcaria para a poder entender e não tenho paciência para despender esse tempo para depois mudar a página e saber que vou ler outra poesia com a qual vou despender outra vez o mesmo tempo ou mais!’ Mas ela era sincera no que afirmava; preferia mil vezes ler romances ‘porque esses é só marchar… aquilo é ler em série, aquilo corre…’ e nisto eu compreendo as afirmações dela e, claro, aceito, aceito mesmo pela honestidade das suas afirmações.» E, se calhar seria capaz de pegar no Dao De Jing de Lao Tzé, que é poesia, e levar uma semana a meditar num poema porque a meditação permite entrar noutros níveis da mente. Ora o que normalmente as pessoas desconhecem é que uma boa poesia de qualquer autor é para ser meditada e daí dizer-se que há que saborear as palavras, há que bebê-las e senti-las no nosso âmago. «Concerteza, concerteza! E pelo que estiveste a dizer voltamos ao início da nossa conversa em que me perguntaste sobre como o gótico poderia ter influenciado a minha poesia. O primeiro livro que eu escrevi e que ainda não foi editado, que se chama Suave Negro Hábito tem muitos poemas que se podem considerar dentro do estilo confuciano, pelas frases conterem o estilo e o conteúdo das máximas, claro que já houve quem me dissesse que aquele material não era meu, mas que é meu é! Há uma frase neste livro, que é uma metáfora e que tem a ver com o facto de nós todos pertencermos a um todo e diz assim

 

‘ hoje morreu alguém

 que não sendo ninguém

era toda a gente.’

 

Este meu livro tem muito destas máximas; ele é dividido em Actos, tem um lado que se pode assumir como máximas-pensamentos poéticas agora, se isso tem a ver com o gótico ou não… não sei. Eu acho que o meu conceito de Gótico é muito particular.

O movimento Gótico surge muito ligado à música tal como à indumentária nos anos oitenta e chamado Movimento Gótico que ainda hoje subsiste. Mas este movimento tem os seus fundamentos no século XVIII com William Blake e com o Dundee, que criou um movimento denominado pelo seu nome, tal como com o Lord Byron e Mary Shelly os quais conduziram o conceito gótico para um campo que na minha opinião não será o mais correcto e que assenta no obscuro, no terror, do negro, do fantástico dos monstros e do fantástico dos vampiros que também tem a ver; claro, não vamos pegar por aí porque eu sempre tive uma opinião muito particular em relação a isto, eu comecei a entrar no movimento gótico não só pela música mas quis aprofundar o significado de gótico, o que é que afinal gótico quer dizer e decidi ler, entre outros, nomeadamente Funcanelli na sua obra O Mistério das Catedrais e cheguei à conclusão que Arte Gótica vem da palavra grega Argôeth (Ar à Ares = Arte) donde deriva o termo Argonautas e ampliando-se ao conceito do Tosão D’Ouro, ou seja, toda a Arte Gótica está envolvida por um mundo fantástico e mágico que não é só trevas, pelo contrário, tu vais ver as arquitecturas góticas e observas que contém uma enormidade como uma variedade de luz que parece não querer findar!» E na realidade o termo grego Argôí significa tanto quer dizer luzente, brilhante como ágil e rápido a que, em grego, Argonautés também corresponde «pois! Porque não é só à luz que me reporto mas também à sua energia, aliás, no outro dia estávamos a falar dos vitrais os quais têm a ver com o gótico onde se vêem aqueles enormes vitrais ricamente trabalhados provocando todo um espectro mágico com uma amplidão que define bem a importância da luz e da sua energia no gótico. Ora bem, quando agora se pergunta o que é ser-se gótico, jovem ou não, mas agora nos anos oitenta ou noventa nos quais apenas se regia pela música, pelos Sisters of Mercy ou pelos Fields of the Nephilim e dos Cult que se vestiam de um determinado modo que apela exactamente à forma como se vestiam no século XVIII, ou seja, do início do Movimento Gótico a nível literário tal como a nível da música se bem que fosse a música sacra quem mais espelhasse o estilo gótico» claro como com o gregoriano e as suas escalas dóricas, jónicas e, etc… «exactamente! Por isto tudo eu acho que o gótico não assenta na trivial afirmação ‘o Gótico que o é não o assume!’

Mas afinal porque é que se diz uma coisa dessas? Porque chegou-se a um ponto, nos anos oitenta e noventa, toda a gente era gótica porque a vestimenta era gira, engatavam-se umas miúdas, mas na cabeça desses não havia conteúdo, apenas ouviam aquele tipo de bandas. Agora, a nível de conceito Gótico e por exemplo, nós aqui em Almada reuníamos baixo o mesmo tipo de pensamentos, não nos considerávamos góticos mas e isso sim, de Ultra-Românticos porque éramos mais românticos que outra coisa qualquer, porque possuíamos o conceito do amor para além da morte, da musa, do amor eterno, tal como o conceito de que estás com a pessoa que amas nesta vida e hás-de estar com ela nas vidas futuras tal como estiveste com ela nas passadas porque o amor quebra as barreiras temporais ultrapassando a noção ilusória de vivência física dado que os dois ao se unirem se tornaram um espiritualmente e aqui também vence a barreira da dualidade e é isto que traduz o amor eterno da tua musa inspiradora, a tua deusa, a mulher não tratada como simples mulher mas como um ser dignificado e deificado, que no fim de contas é o Romântico no acérrimo do termo e, neste caso, o Ultra-Romântico, como exterioriza o Soares dos Passos na sua poesia O Noivado do Sepulcro. Tu hás-de reparar que os velhinhos góticos, sim, porque agora nós já somos velhinhos dado que na altura tínhamos dezassete ou dezoito anos e já temos trinta e quatro ou trinta e cinco ou trinta e seis, a nossa indumentária já não é aquela imagem chapada porque muita coisa mudou a este nível e mesmo somos pessoas que já percorremos outros caminhos no âmbito cultural como coisas ligadas aos celtas, às suas tradições, como no que se reporta ao hinduísmo, ao taoísmo, enfim, a coisas mais tradicionais como aqueles que retornaram às gaitas de foles ou outros que começaram a debruçarem-se mais sobre as nossas próprias tradições como o ir às andanças, às nossas danças mandadas, o nosso tradicional dos tambores, dos tabuleiros, a encomenda das almas, enfim, tudo aquilo que são as ainda vivas tradições de Portugal e que tem muito a ver com o conceito do Movimento Gótico… a Encomenda das Almas é essencialmente gótico. Por tudo isto, quando tu me perguntaste se a minha poesia tinha influência do gótico, eh pá, eu respondi-te que teve e principalmente no início como por exemplo no outro livro que eu não editei o qual foi resultado de um conjunto de poemas que eu já tinha escrito e que já tinha apresentado em espectáculo os quais agrupei em cinco partes que representam os quatro elementos sendo o quinto o elemento Homem.» Bom, estás-te a referir aos cinco reinos esotéricos da Cosmologia e da Cosmogonia mas preferes traduzi-los por elementos… porreiro, dá menos aspecto monárquico. O Tó deu uma gargalhada de profundis e prosseguiu «A essa compilação denominei de Contos da Lua Nova e que quando agora a leio fico reticente em como é que eu escrevi aquilo porque é abundante no sórdido, no sangue, em coisas muito negras mas se quiseres pegar por aí acerca do gótico e da sua influência sobre mim, há que dividir-se pelo menos em três partes: a parte do movimento que surgiu nos anos oitenta ligado a um determinado tipo de músicas chamado música Rock-Gótica e que no fundo tu vais ler as letras e não são mais do que Ultra-Românticas, tens também os aspectos do século XVIII que já foquei e as Catedrais e todo o conhecimento esotérico que elas enquadram e descrevem ligado aos Argonautas e que exibem o Mágico, o caminho da magia, à magia do religar o ser ao divino tal como o que está em cima ao que está abaixo é, portanto, alquímico. Agora se tu me dizes que há coisas na minha poesia que são alquímicas eu digo-te imediatamente que sim porque o são porque reconheço muitas influências disso em mim; por exemplo, tenho aqui um poema que foi feito para declamar na altura da Doce Cicuta e que diz assim:

 

O que nasce morre

e o que morre nasce

e a espiral da vida é um circo

a alma é o palhaço

a ira a fera medonha

e a mente o domador

e a criança ri

e o homem chora

em si menor

a magia é um trapézio

sem rede

e as aberrações

os actos falhados

as frustrações do

repetir constante da maré

os beijos cantados

em dó de amor

os tragos de

lágrimas sorvidos

na corda bamba da dor

e a roda gira

em sol maior

 

Esta poesia declamada como te acabei de o fazer talvez não realce tanto o que pretendo como quando a apresentei com a guitarra portuguesa sendo que nessa altura eu à medida que ia dizendo o poema repetia em estilo de refrão ‘o que morre nasce e o que nasce morre’ e acabava o poema repetindo ‘e a criança ri e o homem chora, e a criança ri e o homem chora, e a criança ri e o homem chora, e a espiral da vida é um círculo.’ Isto e pelo meu modo de analisar as coisas, tem algo de alquímico porque assenta no nascer, no morrer, no voltar a nascer, enfim, é aquela eterna espiral da vida ou a eterna roda, como quiseres, na rotação da roda podes exibir uma espiral elevando-a e baixando-a sempre assente na grande máxima alquímica: o que está em baixo é como o que está acima. Ora, a roda da vida não é mais do que o círculo e, portanto, pela oscilação do círculo observas as espirais que são os nossos signos de vida, uma vez estão em cima outras vezes estão em baixo tal como o arcano maior dez do Tarot que é em toda a sua essência um arcano alquímico; porém, nesta poesia nada observo de influência gótica. Mais, porque é que os góticos deixaram de o ser? Um amigo dizia-me ‘eh pá, já chega! Só falta é porem-me na cruz e apedrejarem-me!’ Quer dizer, tornou-se um fardo de tal ordem pela jocosidade dos outros porém, realço aqui e sobre isto, que os góticos de Almada sempre foram diferentes dos de outras regiões do país, principalmente os de Lisboa, porque nós tínhamos uma atitude completamente diferente mesmo que não fosse muito bonita, mas se alguém ofendesse um gótico de Almada ou, por exemplo, lhe desse um encontrão e não pedisse desculpa automaticamente levava uma cabeçada enquanto que os de Lisboa, como noutras regiões, levavam duas ou mais lambadas no focinho e estava a andar e por isso eram considerados uma cambada de maricas.» É verdade que Almada sempre se demarcou pela diferença no agir; eu antes do vinte e cinco de Abril e ainda no tempo de Salazar fazia teatro e sempre que arrancávamos com uma peça era na Incrível Almadense que se fazia o teste, ou seja, aqui éramos avaliados e por aí sabíamos se valia a pena ou não percorrer o país e também porque aqui a PIDE não se atrevia a pôr as patas de ânimo leve. «Eu hoje envergonho-me de ter tido aquele tipo de atitudes mas nessa altura um gajo tinha quinze anos e o sangue na guelra donde, não se admitia um desafio sem resposta fosse lá de quem fosse e isto fazia parte do carisma. Também o nosso modo de vestir era diferente, os outros eram mais rendilhados enquanto nós não usávamos nada disso e estávamos ligados mais ao estilo da banda Fields of the Nephilim de influências sumérias, uma influência muito mais pagã assente na própria história dos Nephilim, os anjos que vieram à Terra para amar as mulheres e desta forma foram concebidos os gigantes, os grandes homens, os grandes heróis da antiguidade. O nosso modo de vestir era, por tudo isto, muito mais apocalíptica e mesmo pós-apocalíptica, mais rota, mais ‘dust’. Realmente também tínhamos alguns rendilhados o visual negro, o chapéu, mas sempre tentámos sair daquilo que era o estipulado, dávamos largas à criatividade buscando sempre ir mais à frente: por exemplo, usávamos saias idênticas às dos centuriões, kilts, coletes rotos, etc. Portanto, possuíamos uma forma muito diferente de abordar a questão gótica como podes ver. Aliás, eu tendo feito parte do Movimento Gótico, tudo o que fiz a nível de música resumiu-se a uma banda gótica que nem foi criada por mim apenas fui convidado para ir lá cantar para os Poetry of Shadows mas tudo o que saiu a nível musical da minha parte não tinha nada a ver com o gótico tal como Incesto não tinha nada a ver com o gótico ou  Presságio e estes últimos tinham imensa influência dos Dead Can Dance, por sua vez dizem que estes tinham muita influência gótica mas também já ouvi chamarem-lhes muitas asneiras como Dark Folk quando aquilo é música do mundo.

Mas aquilo que tu me afirmaste sobre Almada ser uma “ilha” em Portugal e no bom e grande sentido do termo a todos os níveis culturais e sociais é verdade porque um gajo se trabalha e temos que trabalhar, mas costumamos dizer que se vende o cu ao capital mas a alma não se vendo a ninguém. Vendo o cu ao capital porque trabalho para manter a casa e para ter com que sobreviver enquanto não conseguir manter-me pela minha arte, mas mesmo nas piores condições nunca deixo de desenvolver a minha arte e o pessoal de Almada é assim. Tu observa o pessoal que trabalha, tu estás numa mesa num café e um é pintor, outro é escritor, outro é bailarino, um é músico, outro é fotógrafo e de todas as pessoas que da tua mesa observas todas elas possuem a sua arte trabalhando arduamente nela independentemente de terem que se socorrer de profissões que gostem ou não. Por exemplo, eu sempre trabalhei nas coisas mais variadas mas nunca abdiquei de criar a minha poesia, de a declamar, de me ligar a tudo o que possa dentro da arte, como ser DJ; o Lino trabalha não sei onde mas é vocalista do Noctívagus, a Marta Baluga é professora mas é pintora, o Paulo trabalha pelo país mas não deixa de ser DJ e pinta também, o Pedrosa trabalha para as águas e faz bandas desenhadas, o Pepas trabalhou numa série de sítios mas dedicou-se ao cartoonismo e hoje é cartoonista a tempo inteiro e por Almada a grande maioria é assim porque, por aqui, as pessoas sentem uma enorme necessidade em preservar e continuar a fazer cultura, sempre se cultivou isto por aqui em que as pessoas permaneçam e desenvolvam a sua arte como também a exibi-la e já o pessoal de Lisboa diz em relação a nós ‘eh pá, vocês estão sempre a bombar, estão sempre a fazer merdas enquanto que nós aqui é um marasmo.’ Tu neste momento tens os Da Weasel que ganharam o primeiro prémio da MTV e que são de Almada

Quando António Boieiro começou a escrever poesia considerava-se um Ultra-Romântico só conseguindo escrever quando estava triste, ou quando tinha uma desilusão de amor – aqui o Tó lança uma gargalhada estridente -, ou quando tinha um problema na vida, quando não se sentia bem e, realmente, o nosso poeta tem muita razão ao afirmar que estes estados de espírito e a razão do porque só neles ele (como outros) conseguia escrever é tão interessante quão digno de análise. A noite já tinha coberto as nossas janelas e o Tó preocupado perguntava insistentemente as horas por causa da Cláudia mas ao saber que eram apenas sete e meia decidiu prosseguir «ainda tens isso ligado?» Referindo-se ao gravador ao que retorqui «tenho e ainda tens muita fita para queimar!» «Às vezes as pessoas dizem-me ‘eh pá, ò Tó, tu não escreves coisas alegres...’ e eu pergunto-me nessas alturas o que é que é o alegre e o que é que é o triste... Por exemplo, o poema que há pouco te declamei não é alegre nem é triste; ‘a criança ri’ bom, pode ser alegre e duma alegria das mais puras mas ‘o homem chora...’ apelando ao si menor uma escala que denota tristeza e o homem chora… estás a ver? Mas o que eu quero realçar nestas metáforas é  que quando tu és criança tens toda a pureza do mundo, és a essência mas uma essência ainda bruta porém, quando começas a caminhar para o estado de adulto começas-te a aperceber de outros factores, nessa altura já estás e continuas a ser completamente inundado por uma série de conceitos, de tabus e, pior ainda, de preconceitos e digo pior ainda porque os conceitos ainda podem ser positivos mas os preconceitos nunca e mesmo acho que o preconceito é o aspecto negativo do conceito, mas o que acontece é que quando inculcado por preconceitos, inevitáveis na fase do caminhar para adulto, começas a chorar mágoas pela primeira vez e nisto eu penso que o homem chora pela e a sua infância, o homem chora a falta da pureza que perdeu a meio do caminho do seu crescimento surgindo perante ele a nunca antes pensada dicotomia: o homem adulto e o homem humanidade. É este homem-humanidade que chega a um ponto e chora... e chora porque reconhece ter perdido a sua inocência e toda aquela fantasia riquíssima e cheia de pureza donde, o importante é saber retomar essa fantasia. É a história do Peter Pan, é como eu costumo dizer ‘eu sou o Peter Pan’ e isto assenta no conseguirmos ser crianças para sempre tal como diz o provérbio ‘de criança, poeta e louco, todos temos um pouco’ e acho que esses são os tais pontos essenciais de equilíbrio dum ser humano adulto e penso quão fundamental é manter esses três aspectos.

Entre aquilo que nos inibe ou desinibe para escrever saltaram estilos de música desde Vinicius de Morais aos Dead can Dance, da cerveja a outras bebidas ficando-nos na Apologia do Vinho do Porto, parece um título mas não é. «Ò pá! Com os Dead can Dance eu não escrevo, eu danço! No outro dia estava a arrumar as coisa em minha casa ao som deles e eu dançava, saltava e cantava; o dia parecia ter assumido uma nova e mais brilhante luz. Ainda fiz meditação com o som dos Dead Can Dance e aquilo foi de mais, senti-me libertar e ser possuído por uma alegria, olha não foi a primeira vez mas há muito tempo que não o fazia, cheguei ao meu quarto pus um sorriso e gritei ‘bom dia sol, bom dia terra, bom dia... olha, bom dia a vocês todos!’ Em relação ao beber deixei praticamente porque o alcool pode ajudar numas coisa mas em muitas prejudica mas, por exemplo, o vinho do Porto utilizei muito tanto para escrever como para declamar como para cantar porque é um vinho óptimo para afinar a voz pelo aquecimento que dá à garganta. Uma história gira para contar da Doce Cicuta, quando estávamos no Ponto de Encontro aquilo era tão optimista, que tanto eu como o Lino sentia-mos que em cada uma de todas as quinta-feiras em cada espectáculo que dávamos nós dávamos ali a nossa alma. Houve uma altura, nesse local, que a Cláudia chegou ao pé de mim e disse ‘caramba pá, tu fazias assim com a mão erguida, tocavas com um dedo no ar e sentias energia!’. Nós dávamos mesmo as mãos. Saíamos do espectáculo às duas da manhã e eu levantava-me às sete horas para ir trabalhar e ia completamente fresco, ia com alma suave, liberto, enfim, ia trabalhar com um espírito incrível cheio de felicidade.

Acredito que sim porque tu tens a sorte de pertencer e residir numa comunidade, numa região, de pessoas que sabem ouvir e fazem-no com todo o interesse «de ouvir mas e acima de tudo, de participar ao ponto de conseguirmos uma coisa, que para nós foi extremamente gratificante e que foi trazer gente de fora, vinham religiosamente todas as quintas-feiras pessoas e o espectáculo não mudava assim tanto, tentávamos pôr um ou outro poema novo ou modificado mas as pessoas ali apareciam sempre com grande ânimo, um grupo de umas, ou mais, dez pessoas ali apareciam e viram os espectáculos todos durante os seis meses... aquilo era como uma terapia para aquelas pessoas. Por exemplo, aparecia lá um alemão (penso que era alemão ou inglês mas quase que posso afirmar que era alemão), que não percebia nada de português e muito menos o que eu estava a dizer mas este tipo no final de cada espectáculo vinha dar-me os parabéns completamente extasiado a dizer ‘muito bom, muito bom, muito bom!’ e eu pensava cá para comigo ‘é pá, mas tu não percebes nada, tu não percebes nada do que eu disse...’ e ele continuava dizendo ‘percebi tudo, tudo, percebi pela tua forma de declamar, pela expressão, pela gestualidade, pela música, compreendi tudo!’ Eh pá, eu fiquei tão perplexo... e isto é tão engraçado porque eu senti-me... senti algo tão gratificante e ao mesmo tempo identifiquei-me com uma coisa que eu já tinha lido há uns tempos de Mário de Sá Carneiro no livro do Céu em Fogo um conto em que ele descreve um personagem russo que ele conhece em Paris, em que ele começa a descrever um personagem que ele encontra em frente à Notre-Dame mas, curiosamente, entre tanta gente ele era o único que estava de costas para o monumento a contemplar o céu, como é que isto é possível perante um monumento tão magnífico quão impetuoso que um tipo esteja de costas a contemplar o céu? Aqui começa a descrição do personagem do Mário de Sá Carneiro e isto para te dizer o quê? Esse personagem a certo ponto e tomado de acesso digamos que de loucura, fecha-se num quarto durante dias a fio e diz que vai completar a obra da vida dele. Passado uns tempos vai bater à porta do quarto de Mário de Sá Carneiro, completamente extasiado, com um livro na mão a dizer ‘está aqui, completei a minha obra’ e dá o livro ao Mário de Sá Carneiro que abre o livro e o livro está em branco e isto para afirmar que a poesia é completamente etérea. O Mário de Sá Carneiro descreve também que o ouve a declamar em russo e ele afirma que nunca tinha ouvido russo, que não percebia uma palavra e no entanto percebeu tudo o que ele estava a querer dizer; todo o sentimento expresso por ele a declamar em russo o Mário entendeu perfeitamente ora, quando esse alemão, ou inglês, me disse que tinha compreendido tudo para mim foi uma coisa suprema, foi sublime foi o ter tocado na história de Mário de Sá Carneiro em relação ao ouvir o russo a declamar no seu idioma e isto mostra o etéreo da poesia para além das palavras, está no ar, está em toda a gente a poesia existe muito mais do que a filosofia porque a poesia contêm-na. Por isso me aborrece de sobremodo aqueles ditos de intelectuais a dissertar a poesia, a forma, o conteúdo e a história de isto ter que ser assim e os ritmos e a sintaxe... eh pá, deixem lá a poesia em paz! Isto é quase como que dissecar um cadáver! Não vamos dissecar um poema para analisar a sua forma, para observar o seu conteúdo, se tem mais ou se tem menos, não! Vamos pura e simplesmente senti-lo e ver o que ele surte em nós mas sem qualquer tipo de classificações e muito menos a classificações de regras impostas quais paredes estagnadoras do criativo, do sublime.

Ora, como um mal nunca vem só, até já se faz escola dessas dissecações e seguramente quer algum curso superior terá uma cadeira para esse fim... Cadeira de Anatomia Poética.» Nesta altura exclama a Cremilde «É uma cadeira em que sai tudo a falar igual.» O Tó só repetia «exactamente!» E todos riamos a bandeiras despregadas.

«Bom, tenho que ir andando...» «Não tens mais nada a acrescentar?» «tenho, tenho que vos agradecer este bom bocado.»

E encoberto pelas densas trevas da noite, nestes dias em que a noite é cada vez maior, na de 25 de Novembro de 2004 lá foi o António Boieiro ter com a Cláudia, a sua companheira amada, radiante pelo dia e mais ainda pelo reencontro, radiante de tal forma que vencia o breu e o frio… o amor de um Ultra-Romântico é assim e muito bem!

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Fundo a partir do quadro de Jean Delville, The Love of Souls